O alicerce sobre o qual o artista Sergio Rizo constrói sua carreira consiste em um sólido aprendizado.

Nesse, afirma a prática de uma linguagem tão difícil como a da pintura, constantemente assumindo o desenho como meio de trabalhar idéias ou como finalidade em si, incorporando conceitos que a modernidade transmite como legado. Em imersões tanto na abstração quanto na figuração, elabora uma obra pessoal e forte, tratando de questões singulares, atuando com os códigos da cor e da textura em suas pinturas gestuais, ou estabelecendo imagens orgânicas, mecânicas e anatômicas em seu trabalho mais recente.O monumental tríptico Educação de Lúcifer que o artista Sérgio Rizo expõe nesta mostra, traz uma estrutura narrativa que pode funcionar autonomamente, em cada unidade, ou no próprio conjunto. Esse, revela uma coreografia atormentada onde a figura quase humana de uma espécie de anjo cibernético – um humanóide -, é apreendida e flagrada em movimentos pesados que apontam para uma precipitação atraída pela força da gravidade terrestre. Um estranho maquinário com mecanismos anatômicos, como ossos de costelas e músculos, são acoplados e incorporados à figura, homenageando Moebius, em um ambiente de limbo, lugar suspenso em um mundo sem fronteiras ou limite, saturado em um ar enevoado, nem claro, nem escuro, nem passado, nem presente. Colocando a estética clássica fora de si, na medida que a subverte em tonalidades rebatidas, trabalhadas com rodo e espátula, as figuras recebem um tratamento de contornos definidos por uma técnica particular de desenho em carvão com cola, e todo o tríptico conduz o olhar do espectador, vertiginosamente, para baixo, onde o ponto de fuga de uma perspectiva recompõe sua unidade, aparando a sua própria queda. Expressão dos baixos instintos humanos, o centauro (aqui em representação feminina), figura uma mulher meio-animal-meio-humana que galopa com seus cabelos-crinas em movimento e solta os demônios; uma figura em posição fetal, fracionada pelo movimento, língua solta, prenuncia o início e o reinicio dos tempos. Depois da queda, a educação propagada por Lúcifer é a da trajetória que se faz em vida, do humano-instinto-animal ao humano-máquina-racional, em , dentro e fora, no avesso e no direito, como em uma fita do outro Moebius. Dissimulando outros nós de imagens que podem ser desveladas no intricamento das figuras principais, uma por uma, como armadilhas e seduções para o olhar, o artista insinua que, para o humano, sobre a terra e respirando o ar, com seus instintos voltados para o alto e para o baixo, para o nobre e o ignóbil, esse é o traçado que lhe é dado a percorrer, per omnia secula seculorum.